“Cinquentão com índole de jovem” quer ser ouvido pelo Supremo

"Um cinquentão com índole de um jovem revolucionário apaixonado por tudo o que se envolve" quer impedir que o Supremo Tribunal Federal descriminalize a posse de drogas ilícitas para consumo próprio. Em petição enviada ao tribunal na terça-feira (15/9), Plínio Marcos Moreira da Rocha pede para ingressar no recurso que discute a matéria como amicus curiae.

É Rocha quem se define como dono de um espírito juvenil. E nessa condição, ele afirma que a posse de drogas não pode ser descriminalizada porque se ela só pode ter sido adquirida por meio do tráfico de drogas. Portanto, o usuário é, necessariamente, um financiador direto de criminosos. 

A petição é insólita. O autor destaca diversos termos, frases e parágrafos com cores como laranja, vermelho, marrom, lilás, bordô, roxo, bege, verde claro, verde escuro, azul claro e azul escuro. Não satisfeito, ele também destaca algumas palavras escrevendo-as com letras maiúsculas. 

Rocha se defende. Diz que usou desse estilo por não ser “advogado, nem Bacharel, nem Estudante de Direito”. Contudo, ele especula ser o “único Cidadão Brasileiro COMUM, que, mesmo não tendo nível superior completo”, teve suas práticas inscritas no Prêmio Innovare, que seleciona medidas buscam melhorar o funcionamento do Judiciário brasileiro.

O autor conclui com uma frase de efeito escrita em português italiano, alemão, espanhol, holandês, inglês, francês, árabe e japonês: “A Despreocupação Responsável em MUDAR Conceitos e Valores”. E se define: “Penso, não só Existo, Me Faço PRESENTE Um Cinquentão com índole de um Jovem revolucionário apaixonado por TUDO que se envolve, por isso, tem a Despreocupação Responsável em MUDAR Conceitos e Valores (sic)”. 

ELIMINAÇÃO do tráfico
No recurso em discussão no Supremo, a Defensoria Pública de São Paulo pede que o tribunal declare inconstitucional o artigo 28 da Lei de Drogas, que trata como crime o porte de drogas para uso pessoal. Para a Defensoria, o dispositivo viola os princípios da intimidade e da vida privada.

Os ministros Luiz Edson Fachin e Luís Roberto Barroso votaram pela descriminalização da posse apenas de maconha. Já o relator do recurso,  ministro Gilmar Mendes, concordou com os argumentos da Defensoria e votou pela liberação do uso de todas as drogas. O julgamento foi interrompido por pedido de vista do ministro Teori Zavascki.

Alarmado com o rumo que o julgamento está tomando, Rocha decidiu pedir ao STF que seja ouvido antes da decisão final, “fazendo com que a discussão seja amplificada e o órgão julgador possa ter mais elementos para decidir de forma legítima”.

Segundo ele, não se pode liberar o uso de drogas, pois elas financiam o tráfico. Dessa forma, quem usa drogas deve cumprir sua pena integralmente em regime fechado, “onde sua FUGA também possa ser interpretada como AUSENCIA DE DOENÇA pelo desejo de NÃO se tratar (sic)”.

Depois, ele dá a receita para enfraquecer traficantes: “Para se combater o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, não basta a sua importação, a sua fabricação, o comércio ilegal de armas, a corrupção relacionada, mas, principalmente, eliminar qualquer forma de seu financiamento, efetiva origem do poder de qualquer narcotraficante para adquirir grandes quantidades de drogas, para adquirir armamento caro e de última geração, para aliciar jovens brasileiros de origem humilde, para corromper autoridades institucionais, para produzir ou importar entorpecentes, drogas e afins".

Um exemplo no combate às drogas para o analista é o da Indonésia, “traficante não fica rico, não vira celebridade, nem segue a carreira política”. Lá, o transporte e a venda de entorpecentes são punidos com pena de morte. No primeiro semestre deste ano, os brasileiros Marco Archer Cardoso Moreira e Rodrigo Gularte foram fuzilados por terem entrado na Indonésia com drogas.

O pedido de Rocha tem poucas chances de ser aceito. É difícil relatores aceitarem a participação de novos amici curiae depois de o julgamento já ter começado. Mesmo assim, o normal é o pedido de ingresso ser feito depois da leitura do relatório, nunca depois do voto do relator. E Rocha pediu para entrar na causa já depois de três votos terem sido lidos em Plenário.

Clique aqui para ler a petição.

RE 635.659

Sérgio Rodas

é editor da revista Consultor Jurídico no Rio de Janeiro.

Gabriel da Silva Merlin disse:
16 de setembro de 2015 às 17:48

O problema é que pelo fato dos Ministros do STF se acharem deuses e, por isso, poderiam tomar todo tipo de decisão em nome do povo brasileiro, acaba fazendo que eles não vejam o óbvio.

Se for para descriminalizar o porte de drogás, que se legalize ela de uma vez.

Mas evidentemente que não cabe ao STF fazê-lo, sob pena de passarmos ao viver em uma democracia judicial.

Observador.. disse:
17 de setembro de 2015 às 00:37

Se ele é cinquentão, com estilo colorido ou não, que fique claro à nação brasileira que o Supremo está decidindo algo sem ouvir o povo, sem terem sido eleitos e que vai mudar a vida de muita gente (para pior) apesar das pompas e circunstâncias que cercam tudo que é decidido pelo "Olimpo" .
O Congresso está sendo atropelado.
O povo está sendo atropelado.
Independente das circunstâncias e à quem favorece a decisão X ou Y, é isto que está acontecendo.
Mas, como é praxis no Brasil, todo mundo finge que as coisas não são como são.E ficamos combinados assim.
Por isso somos este país eternamente progredindo com dois passos à frente, seguidos sempre de três passos para trás.
Um país condenado, apesar de tantas riquezas e de ter um povo sofrido e trabalhador (basta observar os ônibus lotados, às 5 da manhã, em qualquer cidade) a ser a vanguarda do atraso.
Certos grupos, que fazem qualquer coisa para se perpetuar no poder, se encarregam para que assim - eternamente - seja.

José Carlos Silva disse:
17 de setembro de 2015 às 08:05

Concordo com o "cinquentão ". Vamos descriminalizar a posse. Todos poderão usar. Mas onde irão adquirir? Será que ninguém pensou nisso? A maconta pode ser plantada na casa do usuário. E a cocaina? E o crac? Só irá aumentar o tráfico. Com o consumo liberado mas pessoas se sentirão atraídas e até motivadas a usarem drogas. E volta a pergunta: ONDE IRÃO ADQUIRIR?

Zé Machado disse:
17 de setembro de 2015 às 08:20

Deveriam se socorrer de sociólogos e psiquiatras para tentar resolver algo que não tem solução aceitável, uma vez que a única forma de combater o mal é não o praticando e, na cultura ocidental isso é bem claro: "não tem solução"

Zé Machado disse:
17 de setembro de 2015 às 08:20

Deveriam se socorrer de sociólogos e psiquiatras para tentar resolver algo que não tem solução aceitável, uma vez que a única forma de combater o mal é não o praticando e, na cultura ocidental isso é bem claro: "não tem solução"

Advocacia Costa Alves disse:
17 de setembro de 2015 às 10:03

Este debate acerca da liberação do porte de drogas para uso próprio em uma determinada quantidade, é um tema que tem de ser debatido pelos cidadãos em um longo processo de valorização sobre o tema, mediante estudos sociais, psicológicos, familiares, politicos, econômicos e de segurança pública. Fica difícil liberar o porte de drogas para consumo próprio a partir de uma decisão do STF, pois, significará a imposição por um órgão judicial que é o órgão máximo da Justiça de uma conduta que alimenta o crime organizado. Fica claro que este debate deve ser inserido no contexto social e não judicial, este debate deve ser realizado pelo Congresso Nacional, os deputados representantes do povo, os Senadores como representantes dos Estados que fazem a politica de segurança pública de repreensão e combate ao crime organizado e ao tráfico de drogas. Se formos falar em legalização do consumo seja mediante o debate e confecção de uma lei que venha prevê a legalização do plantio para consumo próprio e não apenas o porte de drogas para consumo próprio, pois, como bem o colega Doutor Jose Carlos Silva, eles irão comprar de quem? que será o fornecedor da droga que ele supostamente porta para consumo próprio, o crime organizado e o tráfico de drogas continuará a movimentar milhões e a explorar miseráveis, causar a degradação das famílias. O STF não deveria nem esta discutindo o respectivo tema, pois, pode gerar uma grande aberração jurídica no Brasil e legitimar uma conduta que já vem sendo adotada pelo tráfico de drogas a bastante tempo, que é a disseminação de "bocas de fumo" em pequenas quantidades, em vários locais, antigamente esta prática era invisível, hoje as bocas de fumo são visíveis e se multiplicam por todo país a partir de usuários pequenos traficantes.

Bel. Antonio Alves disse:
17 de setembro de 2015 às 11:01

O que esse cidadão diz, e com toda razão, está claro, só que alguns de nossos legisladores e ministros não querem ver. Eu já fiz varias postagens sobre esse assunto. Liberar o uso da droga, ainda que só da maconha, obrigatoriamente deverá liberar seu comércio, seria o mesmo que proibir a venda do arroz e do feijão, ou seja, o cidadão esta liberado para comer arroz e feijão, mas ninguém pode vende-los por que é crime. Na minha modesta opinião, o Supremo, ou pelo menos alguns de seus ministros, estão extrapolando suas funções. Pelo que consta na Constituição, cabe ao legislativo criar leis e não ao judiciário, logo esse assunto deveria ser discutido no Congresso e não no STF. Quanto as alegações da Defensoria Pública, se formos aceitar tudo o que eles dizem, então teremos que aceitar o homicídio, aceitar o estupro, etc., pois ao contrario estaríamos violando a intimidade, a vida privada do cidadão, o Estado estaria interferindo na vontade do individuo. Me perdoem os nobres defensores, mas acho que estão totalmente alheios a vontade do povo, estão totalmente contrários aquilo que a sociedade deseja, ou seja, trabalham em prol de uma minoria e em detrimento de toda uma sociedade. Existem casos muito mais graves, inclusive noticiado pela mídia que certamente necessitaria da intervenção desses órgãos.

Hamilton Magalhães disse:
17 de setembro de 2015 às 11:27

Gilmar Mendes é coerente, julga pela liberação das drogas e pelo financiamento empresarial de campanha.

Você precisa estar logado para enviar um comentário.