Entrevista: Pedro Juliotti, candidato ao comando do MP-SP

Spacca

Adepto de provas de biatlo (natação e corrida) há mais de 20 anos, o procurador de Justiça Pedro Juliotti tem enfrentado maratona diferente desde janeiro ao conciliar as atividades da função com visitas a cerca de 120 comarcas no estado, na corrida eleitoral pelo comando do Ministério Público de São Paulo.

O novo procurador-geral de Justiça será definido em abril, após dois mandatos bienais de Márcio Elias Rosa. No próximo dia 9, 2.037 membros do MP-SP vão manifestar a preferência por um dos três candidatos. O poder de escolha é do governador Geraldo Alckmin (PSDB), com base no resultado da lista tríplice, embora a associação da categoria (APMP) faça campanha pela nomeação do mais votado.

Juliotti integra o MP-SP há 28 anos e respondeu por e-mail questões da revista eletrônica Consultor Jurídico. As propostas da também candidata Eloisa Arruda foram publicadas na última terça-feira (29/3), enquanto a entrevista concedida por Gianpaolo Smanio será veiculada nesta quinta (31/3).

Para Juliotti, a atual gestão acertou ao criar em 2012 o Conselho de Estudos e Políticas Institucionais (Conepi), órgão consultivo implantado para discutir questões administrativas e formado não só pela cúpula da instituição como por promotores de diferentes regiões do interior paulista. Por outro lado, considera que ainda faltam instalações adequadas, estrutura material e número necessário de funcionários.

Ele defende mais eficiência nessa distribuição de recursos e afirma ter propostas para as áreas de estrutura de trabalho, desburocratização, independência, transparência e democratização do MP-SP. O pacote de promessas inclui reduzir assessorias, preencher cargos vagos, consultar colegas sobre prioridades na gestão, ampliar a divulgação de estatísticas e atividades e também transmitir ao vivo as reuniões do Órgão Especial e do Conselho Superior. 

O lema da campanha é “Ministério Público forte. Melhor para a sociedade. Melhor para seus membros”. Na avaliação do candidato, as investigações conduzidas dentro do próprio MP devem ser sigilosas, seguindo as mesmas regras do inquérito policial. O procurador defende ainda a diminuição de recursos fixados hoje no Código de Processo Penal, além de considerar “merecedora de todos os aplausos” decisão recente do Supremo Tribunal Federal que liberou a prisão de pessoas condenadas em segundo grau.

Bacharel em Direito pela PUC-SP, Pedro Juliotti é mestre e doutorando pela Faculdade de Direito da USP e professor da Academia de Polícia Militar do Barro Branco. Foi oficial da PM durante dez anos e é autor dos livros Lei de Execução Penal Anotada e Direito Intertemporal Processual Penal. Integrou o Conselho Superior do Ministério Público, no biênio 2014-2015, e foi eleito para o Órgão Especial no biênio 2016-2017 — foi relator, por exemplo, de caso envolvendo babás obrigadas a usar branco em clubes privados de São Paulo, opinando pelo trancamento da investigação. Nas horas de lazer, divide o prazer pelo biatlo e pelos jogos do Palmeiras.

Leia a entrevista:

ConJur – Qual a importância do Ministério Público brasileiro? E do MP-SP?
Pedro Juliotti –
O Ministério Público é uma instituição independente e autônoma, de imprescindível importância para a função jurisdicional do Estado, agindo na defesa da ordem jurídica, do regime democrático de direito e dos direitos sociais e individuais indisponíveis.

ConJur – O que melhorou no MP-SP com a atual gestão da Procuradoria-Geral de Justiça?
Pedro Juliotti –
A criação do Conselho de Estudos e Políticas Institucionais (Conepi), que representa os membros de primeira instância e ainda precisa ser regulamentado por lei.

ConJur – Quais problemas persistem?
Pedro Juliotti –
Falta de transparência e eficiência na administração; excessiva burocratização e dependência do Poder Judiciário, bem como atrelamento ao governo do estado. Falta de estrutura mínima de trabalho: a) falta de instalações adequadas; b) falta de estrutura material; c) ausência de critérios objetivos e transparentes para destinação de recursos materiais e humanos às Promotorias de Justiça; d) falta de funcionários, peritos, estagiários etc.

ConJur – Quais são suas principais propostas?
Pedro Juliotti – Investir na estrutura de trabalho dos promotores e procuradores de Justiça; promover a readequação administrativa da PGJ — é preciso que o corpo de assessoria seja menor possível, devidamente estruturado e com metas de eficiência e de produtividade; criar cargos e preencher imediatamente os que estão vagos imediatamente, com concurso; transmitir ao vivo todas as reuniões do Conselho Superior do Ministério Público, do Órgão Especial e do Conepi; democratizar a instituição, permitindo que promotores de Justiça possam ascender aos cargos de direção; firmar convênio com a Secretaria de Segurança Pública para receber os dados já cadastrados no sistema pela polícia; desburocratizar o SIS [Sistema de Consulta Pública de Procedimentos, canal para dar acesso aos casos em andamento no MP]; altivez na defesa de prerrogativas institucionais — defender inclusive colegas em face da anunciada necessidade de digitalização de inquéritos policiais.

ConJur – O senhor se refere à iniciativa do Tribunal de Justiça que repassou a tarefa ao MP, a partir deste ano?
Pedro Juliotti –
Sim, uma resolução do tribunal definiu que o Ministério Público deverá digitalizar inquéritos a partir de julho. Na minha gestão isso não vai ocorrer. Quem tem que digitalizar é a Polícia Civil, que poderia criar um modelo como o Rio de Janeiro, onde funciona delegacia específica para essa função.

ConJur –  Quais as demandas mais ouvidas durante a campanha, em suas visitas por promotorias em todo o estado?
Pedro Juliotti –
Falta de estrutura das promotorias; criação de novos cargos; excessiva burocratização; falta de funcionários; problemas com o sistema de informática adotado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, à revelia do MP, entre outros.

ConJur – Como é possível aprimorar os trabalhos e atender pedidos de promotores e procuradores com orçamento enxuto, em cenário de crise econômica?
Pedro Juliotti –
É preciso fazer uma readequação administrativa; estabelecer prioridades com transparência e em conjunto com os colegas; reduzir assessorias; firmar convênios; participar dos fundos de recuperação de ativos e profissionalizar a Diretoria Geral. Também é necessário lutar pelo fundo de custas processuais [destinação ao MP de parte das taxas judiciais]. O governador Geraldo Alckmin já reconheceu esse direito, mas vetou projeto de lei sobre o tema [em 2015] por ter sido proposto pelo Legislativo, quando a iniciativa caberia apenas ao chefe do Poder Executivo estadual.

ConJur –  Pretende ampliar estatísticas e divulgação de informações sobre as atividades da instituição?
Pedro Juliotti –
Sim, além de ampliar e profissionalizar a Assessoria de Imprensa do MP-SP.

ConJur –  Há critérios fixos para definir quais fatos serão investigados diretamente pelo MP?
Pedro Juliotti – Não.

ConJur –  Membro do MP pode anunciar que vai investigar alguém?
Pedro Juliotti – A investigação deve seguir o mesmo regramento do inquérito policial, que é um procedimento inquisitorial e sigiloso.

ConJur –  Quais mudanças legislativas são mais relevantes ou urgentes no país?
Pedro Juliotti –
Alteração do Código de Processo Penal (simplificação de ritos e redução de recursos tornando o processo mais célere) e do Código Penal (criminalização de novas condutas, como aquelas praticadas via internet).

ConJur –  O Supremo Tribunal Federal acertou ao antecipar a execução da pena a partir de decisão colegiada em segundo grau?
Pedro Juliotti – Sim. É uma decisão merecedora de todos os aplausos, pois a matéria de fato só pode ser apreciada até a segunda instância. Eventuais recursos extraordinário e especial têm como objetivo tutelar a legislação federal, protegendo apenas de forma indireta o direito de liberdade do recorrente, ante a necessidade de se comprovar a repercussão geral — que transcende os interesses das partes.

ConJur –  Apoia todas as 10 medidas anticorrupção apresentadas pelo Ministério Público Federal?
Pedro Juliotti –
Sim.

ConJur –  Como vê a aplicação de delações premiadas e acordos de leniência? Cabe ao PGJ discutir modelos padrões para os termos dos acordos?
Pedro Juliotti –
As discussões a respeito de delações premiadas e acordos de leniência deverão ser travadas nos órgãos de direção do Ministério Público.

ConJur –  Como avalia o indulto?
Pedro Juliotti –
O indulto é um beneficio utilizado de forma indiscriminada para soltar presos e atenuar o grande problema da superpopulação carcerária no Brasil.

ConJur –  Como avalia a condução das audiências de custódia no TJ-SP? Têm estrutura adequada, apresentam número suficiente de promotores escalados, apuram efetivamente relatos de violência policial?
Pedro Juliotti – As audiências de custódia foram chanceladas por tribunais superiores. Assim, resta-nos cumprir essa nova obrigação, conferindo aos promotores de Justiça a suficiente estrutura para o escorreito desempenho de suas funções.

ConJur –  A operação “lava jato” levou à quebra do sigilo telefônico de um escritório de advocacia e divulgou conversa entre a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula. Como o senhor avalia essas medidas?
Pedro Juliotti – A Lei 9.296/1996 regulamenta a interceptação telefônica, que só pode ser deferida judicialmente quando estiverem presentes os requisitos legais: haver indícios razoáveis da autoria ou participação em infração penal; a prova não puder ser feita por outros meios disponíveis; o fato investigado constituir infração penal punida com pena de reclusão.

Felipe Luchete

é editor da revista Consultor Jurídico.

Danilo Ruiz Fernandes Rosa disse:
30 de março de 2016 às 14:11

O Professor Juliotti sempre emérito em suas históricas aulas no curso de Direito na matéria de Processo Penal na qual me recordo ter sido seu aluno, mais uma vez nos dá uma lição de que o princípio da eficiência pode ser difundido para melhor aprimoramento da prestação jurisdicional. Parabéns.

Danilo Ruiz Fernandes Rosa
Procurador do Município de Carapicuiba

daniel disse:
30 de março de 2016 às 15:35

Este pessoal do mp nao quer ser avaliado nao. ...acham que sao deuses e superiores

daniel disse:
30 de março de 2016 às 15:35

Este pessoal do mp nao quer ser avaliado nao. ...acham que sao deuses e superiores

Roque Jose Stringhini disse:
31 de março de 2016 às 09:22

Faltou perguntar e o Doutor Juliotti responder o que pretende fazer, se nomeado PGJ, para combater as ações do PCC, que dominam os presídios, aterrorizam e humilham criminosos primários, seus familiares e autoridades encarregadas da guarda de seus integrantes. O assunto é gravíssimo, porém, não merece a atenção devida do Governo e do M.P.

Francisco Lobo da Costa Ruiz - advocacia criminal disse:
01 de abril de 2016 às 17:04

Desejo ao meu querido amigo e antigo colega de magistério muita sorte e sucesso a empreitada.

Francisco Lobo da Costa Ruiz - advocacia criminal disse:
01 de abril de 2016 às 17:05

... sucesso na empreitada.

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