Discurso de juízes e do MP sobre abuso de autoridade é corporativista

No Estado Democrático de Direito, juízes e promotores são protagonistas, mas não são inimputáveis, até porque, na condição de pessoas, padecem de mal comum ao gênero humano: a falibilidade.

Na verdade, são agentes públicos que lidam com bens muito preciosos, como a liberdade, a dignidade e o patrimônio das pessoas, o que lhes impõe, além das cautelas indispensáveis, responder pelos equívocos e excessos que eventualmente venham a cometer.

Em suma, não podem pairar acima da Constituição e das normas legais em geral, vale dizer, não estão acima do bem e do mal, porque, apesar de investidos em funções relevantes, estão sujeitos ao erro e outros pecados menores e maiores.

Todos sabemos que, entre tantos magistrados qualificados e probos, há juízes despreparados, desatualizados, descomprometidos com o trabalho, afoitos, comprometidos ideologicamente e mesmo venais, que não entregam a prestação jurisdicional como deveriam fazer.

O mesmo é de se afirmar em relação ao Ministério Público, que, não poucas vezes, persegue mais os holofotes do que a realização do Direito.

Constitui falácia afirmar-se que a responsabilização desses agentes públicos, nos casos em que suas atuações extrapolem os limites legais, caracterizando abuso de autoridade, representaria prejuízo para a continuidade de investigações em andamento, de processos em tramitação e para a aplicação do direito.

Necessário ressaltar que excessos e ilicitudes que, eventualmente, lhes forem irrogadas serão objeto de julgamento na esteira do devido processo legal, observando-se, como natural, o contraditório e a ampla defesa.

O que está ocorrendo neste momento é que a magistratura e o Ministério Público, segmentos do serviço público brasileiro com o maior nível de remuneração, ultrapassando, em todos os casos, o teto fixado na Constituição Federal, com a reverberação das notícias a esse respeito, sentem a necessidade de reagir para manter o status quo.

Daí, o discurso corporativista, beirando a chantagem, que passaram a propagar, sustentando que a responsabilização de seus membros por eventual abuso de poder representa risco para investigações em andamento e para a aplicação do direito, chegando mesmo membros do Ministério Público a afirmar, em caso de chantagem explícita, que se afastariam das investigações em curso, como se isso fosse possível ou como se não fosse possível substituir os insurretos ou insatisfeitos.

Então, em suma, o que temos é o corporativismo exacerbado da Magistratura e do Ministério Público, que a imprensa, à falta de melhor compreensão do cenário, faz ecoar, inflamando a opinião pública, já tão desalentada com a atuação de muitos de seus representantes políticos e tão entusiasmada com as ações da Justiça e do Ministério Público em vários episódios que têm levado a julgamento antes eminentes próceres da vida pública brasileira.

O que vem ocorrendo e, diferentemente do que propala o discurso falacioso, continuará a ocorrer inexoravelmente, em razão da relativa maturidade política que o país alcançou, é a realização do princípio constitucional/democrático, segundo o qual, todos são iguais perante a lei.

Os membros da magistratura e do Ministério Público, nas suas relações sociais e nas suas atuações funcionais, estão sujeitos às mesmas normas que nós outros mortais. Precisam entender isso e precisam entender que não são detentores de mandato para legislar, como, às vezes, parecem acreditar, se arvorando em fazê-lo.

Rodrigo Fernandes de Moraes Ferreira

é advogado, sócio do escritório Ferreira Advogados e Consultores Associados, mestre em Direito e professor universitário em Brasília.

José Milton Ferreira

é advogado, Conselheiro Aposentado do Tribunal de Contas do Distrito Federal e ex-procurador-geral do Distrito Federal. Sócio do escritório Ferreira Advogados e Consultores Associados.

Ricardo disse:
28 de abril de 2017 às 07:45

Não há corporativismo na nobre classe da advocacia. Quem pratica abuso em qualquer segmento tem que ser punido exemplarmente. Só juízes e promotores praticam abusos?!? Evidentemente que não. Então que se edite uma lei que puna a todos e não uma lei casuística. A legislação atual está em vigor há décadas, mas estranhamente o assunto ressurtiu com força por meio de políticos investigados pela Lava-Jato. Isso desmerece totalmente a iniciativa. Se querem fazer algo sério que façam, mas retaliação pura e simples é inaceitável. Político também tem que responder por abusos como esses!

Zé Machado disse:
28 de abril de 2017 às 08:03

Se se olhar pelo âmbito da cultura, inclusive dos países desenvolvidos pode-se chegar a várias conclusões. A mais próxima é que a cultura brasileira é predominantemente da malandragem. As resistências ao aprimoramento está levando muitos à categoria de aloprados, principalmente os da equipe da lava jato que por oportunismo, despreparo ou mesmo dolo, estão atropelando sagrados princípios do direito.

Zé Machado disse:
28 de abril de 2017 às 08:03

Se se olhar pelo âmbito da cultura, inclusive dos países desenvolvidos pode-se chegar a várias conclusões. A mais próxima é que a cultura brasileira é predominantemente da malandragem. As resistências ao aprimoramento está levando muitos à categoria de aloprados, principalmente os da equipe da lava jato que por oportunismo, despreparo ou mesmo dolo, estão atropelando sagrados princípios do direito.

Rejane Guimarães Amarante disse:
28 de abril de 2017 às 09:20

Congratulações aos articulistas pela correta síntese. Além de todos os erros possíveis, há futilidade pura e simples em muitos casos, pois quem ganha supersalário, não está sujeito a cobrança de produtividade e qualidade, nem ao risco de desemprego, perde a noção da realidade e julga os outros com leviandade (sempre ressalvadas as honrosas exceções). E também esqueceram dos "recalcados", que são a maioria, gente da classe média sem vínculos atávicos com o Poder, que ingressa nas carreiras jurídicas e perde a compostura.

daniel disse:
28 de abril de 2017 às 09:40

E o da OAB não é corporativista ?

daniel disse:
28 de abril de 2017 às 09:40

E o da OAB não é corporativista ?

Rogério R Adv disse:
28 de abril de 2017 às 10:50

O texto é ridículo. Acho que sei o que os advogados subscritores querem: defender réus poderosos, conseguir sempre a absolvição ou uma grande redução de pena e encher o bolso de honorários. Sobre o valor Justiça, esqueça. O que vale é a "grana".

Para muitos advogados, se um cliente rico é condenado, então houve violação de seus direitos fundamentais ou abuso de autoridade. Por isso que a classe da advocacia não é mais respeitada pela sociedade. Onde está a ética? Cadê o sentimento por justiça?

Falar que o projeto de lei do abuso de autoridade não tinha ameaças à independência judicial só poderia ter vindo da mais corporativista (e talvez a menos respeitada) das classes: a de advogados.

Eu, enquanto advogado, prefiro pensar com a cabeça, ao invés do bolso: quero sim juízes independentes e também o combate à corrupção, inclusive dos poderosos investigados na Lava Jato. O projeto de lei do abuso continha várias ameaças à essa independência judicial, e, após as mudanças, ainda possui algumas. Espero que a Câmara as extirpe antes da aprovação.

afixa disse:
28 de abril de 2017 às 10:52

Vai estudar senão você não passa na prova.
Paz e bem!

A favor da lei advocacia autônoma disse:
28 de abril de 2017 às 11:18

"Corporativismo na visão enviesada do Sã Chopança se transformou em Defesa da sociedade"! Quais são as garantias para a sociedade, a não ser as conveniências egoístas e hipócritas próprias de um insólito e criminoso corporativismo terceiro-mundista? O bizarro Sã Chopança tem que poupar os leitores desta Revista Eletrônica com tamanhas bobagens e estultices, a não ser que o mesmo seja mais um pusilânime juiz amoitado! Em uma republiqueta de bananeiras, em que um magistrado chega a "faturar" R$100.000,00 por mês, e um promotor qualquer R$60.000,00, acentuando ainda mais a selvagem concentração de rendas em um pais considerado terceiro-mundista, é o fim da picada! A sociedade tem que promover urgentemente uma insurreição contra essas barbaridades, em que meia dúzia de cidadãos se locupletam à custa do suor de 99% da população economicamente ativa. Vamos ter a coragem e irmos para as ruas debater essas disparidades, e vamos ELEGER PELO VOTO POPULAR MAGISTRADOS E PROMOTORES, VAMOS ACABAR COM A FARRA DA SUBTRAÇÃO AO DINHEIRO PÚBLICO!

Ramiro. disse:
28 de abril de 2017 às 21:09

Lá pelos 14 min do vídeo que vem na reportagem Ferrajoli fala de que na Itália procedimentos aceitos e aplaudidos no Brasil renderiam ações penais e administrativas, mas enfim...
http://justificando.cartacapital.com.br/2017/04/19/luigi-ferrajoli-jurista-de-reputacao-mundial-condena-abusos-da-lava-jato-em-palestra/
O vídeo apenas fica num link
https://www.facebook.com/Lulastruth/videos/1395309977181429/

Alguns agentes públicos deveriam se lembrar do fim de jacobinos como Danton e Robespierre...

Rodrigo Fernandes de M. Ferreira disse:
29 de abril de 2017 às 00:40

De se lamentar a postura do colega Rogério. Além de tecer considerações juridicamente rasas, pensa, tolamente, que o artigo tem por pretensão "defender réus poderosos" e permitir que "enchamos o bolso de dinheiro". Isso sim é ridículo, além de baixo. Razões devem ser discutidas e rebatidas com razões maiores. Esses argumentos são pífios e desrespeitosos.

Rodrigo Fernandes de M. Ferreira disse:
29 de abril de 2017 às 00:43

Meu caros, como autor do texto, sinto-me no dever de fazer alguns esclarecimentos:
Penso que o projeto de lei pode e deve ser melhorado. Também não concordo com a ampla subjetividade de algumas previsões, como a que pretendeu estabelecer o dito "crime de hermenêutica" (embora o MP faça isso constantemente ao procurar responsabilizar advogados por pareceres), mas a modernização da lei se faz necessária. A atual, deveras antiga, já não contempla as necessidades para a construção de uma sociedade mais garantista e democrática.
Não estamos falando só do Judiciário ou do MP. Os abusos são inúmeros e reiterados, acontecem em delegacias, nos demais órgãos públicos, com pessoas menos favorecidas também e, infelizmente, consistem numa realidade em meio ao processo em que buscamos a consolidação e aprimoramento de nossas instituições.
Ninguém pode pairar acima da lei e não se trata de fragilizar os legítimos instrumentos conferidos aos órgãos de polícia, ao MP e ao Judiciário.
Não se trata de corporativismo de minha parte. O corporativismo de qualquer lado, mesmo da advocacia, não agrega. Sou extremamente favorável à Lava Jato, embora vislumbre alguns excessos, e não tenho nenhum interesse direto no tema, que não a discussão saudável.
Não ignoro também os eventuais interesses não revelados de políticos em prejudicar e intimidar, mas preocupa-me que não reconheçam que compete ao parlamento apreciar e votar a lei.

preocupante disse:
02 de maio de 2017 às 15:32

O texto apresenta com maestria a triste realidade que vivenciamos neste país chamado Brasil. Dito isto, ainda acrescento que, mesmo que em tese o legislador elabore a lei sobre o tema mais perfeita do universo, aqui no Brasil não funcionará, pois o cumprimento da lei depende acima de tudo do compromisso dos homens e não de seu texto. E como somos conhecidos - e parece até que nos orgulhamos disso - em se comportar sempre contrário ao comando normativo (incluídos aí, principalmente, as autoridades públicas), essa nova lei do abuso de autoridade também será letra morta como tem sido a que se encontra em vigor.

Serpico Viscardi disse:
02 de maio de 2017 às 18:23

Com argumentos rasos e inversão de valores, autor do texto expõe todo o seu recalque e complexo de inferioridade.

Causa ojeriza, elogiar uma lei feita sob medida para blindar bandidos e enriquecer os "defensores de bandidos".

Crime de hermenêutica, ação penal privada (para ser utilizada como meio de defesa), tipos penais direcionados e exclusivos para promotores e juízes (como se outros servidores não cometessem abusos), são só alguns dos absurdos propostos.

Engraçado que os mesmo que defendem o projeto original da Lei de Abuso, são os que criticavam as "10 medidas contra a corrupção" por serem severas e desproporcionais.

Coerência nunca é o forte de quem só pensa na sua barriga e não se importa com a sociedade!

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