Existe no Brasil um certo descompasso entre as instituições de investigação e persecução penal e a realidade das organizações criminosas. Digitalizadas e fornecedoras de serviços criminosos, elas exigem um novo tipo de enfrentamento e combate ao crime.

Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, destacou que crime virtualizado e aprimorado exige novos esforços de combate
Esse diagnóstico foi apresentado pelo diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, em palestra no XXVIII Congresso Internacional de Direito Constitucional, organizado pelo IDP em Brasília, na quarta-feira (22/10).
A fala se deu sob a perspectiva dessa nova realidade virtual, que levou a uma migração dos crimes físicos para os virtuais. Em sua análise, isso traz desafios para instituições ainda focadas nas operações locais envolvendo bens tangíveis.
Novas formas de crime
A realidade é de fluxos transancionais e de delitos praticados por meio de deep fakes e outras formas de engenharia social, com valores dispersos por meio de criptoativos e tecnologias como as NFTs e blockchain.
“Temos que ter um novo tipo de enfrentamento (à criminalidade)”, disse Andrei Rodrigues, que contou ter sido convidado para uma reunião na Europol (a agência europeia de cooperação policial) em que foi abordada a criminalidade como serviço.
“Há organizações criminosas, hoje, que prestam serviços de invasão de sistemas, de lavagem de dinheiro, de ocultação de patrimônio. Quem se interessar por isso pode contratá-los. Então, realmente, o enfrentamento tem que ser outro”, disse o diretor-geral da PF.
Avanços no combate
Para enfrentar essa realidade, o órgão criou, em 2023, a Diretoria de Crimes Cibernéticos, com instalação nas capitais brasileiras de 27 delegacias especializadas no tema. Isso mudou a lógica da investigação no âmbito federal.
Andrei Rodrigues deu um exemplo: até pouco tempo atrás, um ataque hacker contra 200 pessoas levaria à abertura de 200 inquéritos, que seriam instruídos de maneira quase isolada. Nessa modalidade, olhava-se para cada vítima do delito.
No novo modelo, a investigação é digital e fica armazenada em um banco de dados que permite o cruzamento de informações. Esse trabalho vai apontar que essas 200 fraudes podem se relacionar ao mesmo indivíduo.
“Aí instauramos um inquérito, em vez de 200 que não iam dar em nada. E esse inquérito foca no autor do crime. Os resultados são muito mais efetivos. Diminuímos a quantidade de investigações e aumentamos a qualidade para um melhor resultado.”
Segundo o diretor-geral, a PF brasileira tem taxa de solução de 85% dos casos, o que a coloca na primeira prateleira das polícias no mundo.
“Isso com seriedade e responsabilidade, sem entrevistas espalhafatosas, sem esculacho de investigados ou imprensa na porta da casa deles. Sem heróis ou personagens midiáticos. Só com trabalho e muita seriedade.”
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