O Brasil tem diversas fontes de energia, muitas delas limpas, mas precisa transformar o potencial em segurança energética. Foi o que afirmaram os especialistas que participaram do evento “Perspectivas para o setor de energia: regulação, resiliência, inovação e data centers”, promovido nesta sexta-feira (31/10) na Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro.

Fundação Getulio Vargas do Rio recebeu debate sobre questões do setor de energia
O evento foi organizado pela FGV Conhecimento e coordenado por Benjamin Zymler, ministro do Tribunal de Contas da União e coordenador acadêmico da FGV Justiça.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, criticou a aprovação da Medida Provisória 1.304/2025, na véspera, pelo Congresso Nacional. Segundo ele, a medida representou uma vitória de lobbies sobre o interesse público.
A MP 1.304/2025 trata de diversos temas do setor elétrico. Durante a votação na Câmara dos Deputados, foi retirado do texto o dispositivo que criava uma cobrança de R$ 20 a cada cem quilowatts-hora (kWh) sobre novos projetos de geração distribuída — modalidade que inclui pequenos sistemas, geralmente de energia solar, instalados em telhados, fachadas e terrenos.
Esse item da MP era essencial para equilibrar o sistema, destacou Silveira. “Precisamos dar segurança energética ao povo brasileiro. Sem baterias, nós vamos ao colapso energético. Teremos excesso de geração e dificuldades na operação do sistema, que não consegue enxergar o volume de energia distribuída que está entrando.”
O ministro afirmou que o país deve adotar medidas urgentes para equilibrar a geração distribuída, especialmente diante do avanço da micro e da minigeração solar. Segundo ele, o governo pretende publicar ainda neste ano uma portaria para viabilizar o primeiro leilão de baterias do Brasil, previsto para ocorrer no primeiro trimestre de 2026.
De acordo com Silveira, o leilão buscará contratar capacidade de armazenamento para ampliar a previsibilidade e a segurança do sistema elétrico, em meio ao aumento da participação de fontes renováveis intermitentes.
Além disso, o ministro defendeu a implementação de data centers, citando a necessidade deles para o desenvolvimento de tecnologias. E disse que a energia nuclear é essencial para o país, por ser limpa e termos urânio em abundância.
Criticada por ambientalistas, a exploração de petróleo na Margem Equatorial pela Petrobras — recentemente autorizada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) — foi defendida por Silveira.
“Se o Brasil é um país que ainda tem que combater a miséria, a fome, a desigualdade social, não pode abrir mão do petróleo. Somos um país de pluralidade energética. Temos que aproveitar nossas riquezas de forma sustentável e com inclusão social.”
Ameaças
Alexandre Silveira disse ter recebido ameaças de representantes do setor de geração distribuída (GD) em seu celular há cerca de um ano, após se opor a uma proposta que ampliaria subsídios ao segmento.
“Quando fui à Câmara dos Deputados para derrubar R$ 2,5 bilhões que queriam enfiar na CDE (Conta de Desenvolvimento Energético), recebi ameaça no meu celular. Está guardadinha para a hora certa. Ameaça do setor de GD. Não entendi nada. Minha carteira não está assinada por eles, está assinada pelo governo do Brasil”, afirmou o ministro a jornalistas, sem revelar quem teria feito tais ameaças.
Silveira disse que não se intimidou com as mensagens e atribuiu a serenidade à sua formação como delegado de polícia, o que, segundo ele, o impede de se assustar com “bate-pé, bicho-papão ou ameaças sem relevância”.
O ministro declarou que apenas defendia o interesse público ao se posicionar contra novos incentivos à geração distribuída. “Eu defendia o óbvio. Não precisamos de mais subsídios para GD no Brasil. Não podemos admitir que a CDE continue recebendo penduricalhos de interesses que não são nacionais.”
Novas perspectivas
O presidente da Light, Alexandre Nogueira, afirmou que a quarta revolução industrial depende de data centers, que precisam ser instalados onde há conexão de dados. De acordo com ele, o Rio de Janeiro é um local ideal para isso, pois tem conexão com América do Norte, Europa e África e confiabilidade de rede, já que é abastecido por Itaipu e sistemas do sul e do norte.
Joisa Dutra, diretora do Centro de Estudos em Regulação e Infraestrutura da Fundação Getulio Vargas (FGV Ceri), ressaltou que o aumento dos preços de energia nos últimos anos se deve a resiliências. No setor elétrico, isso significa a capacidade de uma rede de resistir a eventos climáticos extremos e se recuperar o mais rápido possível caso ocorra uma interrupção no fornecimento de energia. Os eventos do últimos tempos têm elevado os gastos, segundo ela.
Por sua vez, Mauricio Tolmasquim, conselheiro da Axia (ex-Eletrobras), disse que a energia é o limite físico da economia digital. “Não existe inteligência artificial sem energia limpa, estável e barata.”
O grande desafio, na sua visão, é conciliar a energia solar e a eólica com as demandas dos data centers. O próximo passo que o setor tem de dar é transformar o potencial de energia variável em energia firme, disse ele.
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