Segunda Leitura: A imagem e a etiqueta nas profissões jurídicas

""Spacca” data-guid=”coluna-vladimir.png” />A imagem do operador jurídico é pouco discutida. A etiqueta, por vezes, é confundida com ultrapassadas regras de comportamento que não servem para nada. No entanto, ambas são instrumentos importantes nas relações humanas em geral e nas profissões jurídicas em especial.

Comecemos pelos estudantes de Direito. Os que chegam hoje às Faculdades diferem de outras gerações. Não importa a razão (p. ex., pode ser o pouco contato com mães na primeira infância), mas sim o fato. E este é que eles são menos ligados ás regras não escritas da etiqueta do que seus colegas de 20 anos atrás. Assim, entram e saem da aula sem pedir licença, alguns de boné na cabeça, reagem de forma exagerada a qualquer negativa, usam roupas mais adequadas a uma quadra de bola ao cesto do que a uma sala de aula, confundem educação com bajulação.

Tal tipo de postura acaba influenciando diretamente o desenvolvimento intelectual e o futuro profissional do estudante. Cria uma imagem negativa que vai refletir-se nas suas atividades. Dificilmente será lembrado para participar de um estágio, projeto de pesquisa ou grupo de estudos. Uma vez graduado em Direito, provavelmente reprovado no Exame de Ordem, sem relacionamentos que lhe abram portas para a vida profissional, acabará trabalhando na loja de materiais para construção do tio da namorada ou em algo semelhante.

É durante o curso que se participa de estágios. Neles o estudante deixará o rastro de sua passagem e dela, surgirão ou não, as oportunidades. Se tiver sido educado, trabalhador e discreto, talvez seja chamado para ocupar uma boa posição em uma empresa ou órgão público. Mas, se passou seu tempo a demonstrar sua ruidosa alegria e seu informalismo exacerbado, dando sonoras gargalhadas e a tratando o Diretor por Marcão, certamente será lembrado apenas para fazer parte do bloco carnavalesco “Unidos do Fórum”.

Mas, a etiqueta não é importante apenas para os jovens. Os que conquistam o título de advogado dela também necessitam. A começar pela admissão em um escritório. É a mais absoluta falta de noção enviar o currículo por e. mail e tratar o dono do escritório com um juvenil: “ Oi João Carlos”. Ou, se for mulher, comparecer a uma entrevista com salto alto 18 e um decote nas costas que chegam aos glúteos.

No exercício da advocacia a etiqueta é fundamental. Se fizer parte de um grande escritório, com carreira organizada, deve saber que está sendo avaliado constantemente. De nada adiantará fazer boas peças se na festa de fim de ano misturar caipirinha com conhaque e passar a exibir, animadamente, seus dons de passista de escola de samba.

Nas audiências uma postura profissional respeitosa será a regra. Para expor suas ideias não é preciso ridicularizar o advogado da parte contrária. Para expor algo ao juiz não precisa berrar. Distribuir beijinhos a quem se aproximar não revela personalidade amiga, mas sim vulgaridade. Atender o celular, nem pensar. Tratar bem os funcionários de Cartório para ser bem tratado é regra básica de cortesia. Manter segredo das mazelas que lhe chegam ao conhecimento é dever ético.

A etiqueta e cuidar da imagem, por óbvio, não são recomendáveis apenas aos profissionais liberais. Aos que exercem função pública suas regras também são essenciais. Da forma como elas são manejadas pode resultar um convite para uma função de cúpula ou o esquecimento em uma atividade sem relevância.

Nos Tribunais, é falta grave deixar todos aguardando 20 ou 30 minutos para iniciar a sessão, tudo porque os desembargadores estão tomando café em uma ante-sala. Nas sessões solenes, nada pode ser mais desrespeitoso do que aguardar até uma hora a chegada do governador. Horários são marcados para serem cumpridos.

Juízes não criticam pessoas publicamente. É de péssimo gosto ficar contando aos advogados suas queixas contra o Tribunal. Mais ainda, colocar nas sentenças admoestações a autoridades do Executivo ou do Legislativo. Da mesma forma, criticar os colegas, o que, além de ser de mau gosto, ainda acaba afetando negativamente o próprio detrator e o seu Tribunal.

Promotores de Justiça, muitas vezes íntimos amigos dos juízes, valem-se desta proximidade para obter tratamento processual privilegiado nas audiências. Não é atitude correta. Tal atitude cria na parte contrária a sensação de parcialidade. Se tal prática persistir, cabe ao Juiz conduzir-se de maneira formal, deixando evidenciada sua independência.

Professores têm um papel de grande relevância, pois não ensinam somente Direito, mas também transmitem lições de vida. Aqueles que para alcançar popularidade falam palavrões em aula, ridicularizam pessoas ou instituições, estão formando profissionais deformados e que irão mais tarde repetir tais comportamentos nas suas atividades.

Na Polícia, a etiqueta é mais complexa. Acostumados a tratar com as mais graves situações, tendem os policiais a tornar-se mais ríspidos. Mais na Polícia Civil e na PM, onde surgem as ocorrências mais repugnantes, menos na Polícia Federal, onde os infratores costumam ter melhor nível social. No entanto, diariamente é preciso que o policial renove a conscientização de que o rigor na investigação não exige a humilhação de quem quer que seja. Ou, como já disse alguém, “é preciso endurecer sem perder a ternura”.

O traje. As profissões jurídicas são formais, tradicionais. Portanto, tal como se tem, inconscientemente, a expectativa de que um médico esteja de roupa branca, um militar com a barba bem feita e a bibliotecária com óculos de grossas lentes, dos operadores jurídicos se espera que usem roupas adequadas às funções. Do juiz, sempre o mais visado, não se imagina alguém vestido com um agasalho de moletom e tênis, mesmo fora do horário de expediente no Fórum. De uma procuradora da República em audiência, espera-se algo como um “tailleur pantalon” e não uma saia curta, o que vulgarizaria seu cargo.

Em suma, em tempos de flexibilização geral, é bom evitar os excessos na linguagem, os trajes inadequados e a indiscrição, pois todos eles têm significado de comunicação não verbal, implícita e subliminar. A construção de uma boa imagem profissional não se limita aos anos de experiência e aos títulos acadêmicos, mas também ao modo como o profissional é visto na sociedade.

Vladimir Passos de Freitas

é professor de Direito no PPGD (mestrado/doutorado) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, pós-doutor pela FSP/USP, mestre e doutor em Direito pela UFPR, desembargador federal aposentado, ex-presidente do Tribunal Regional Federal da 4ª Região. Foi secretário Nacional de Justiça, promotor de Justiça em SP e PR e presidente da International Association for Courts Administration (Iaca), da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) e do Instituto Brasileiro de Administração do Sistema Judiciário (Ibrajus).

Jeferson Furtado disse:
06 de maio de 2012 às 23:38

Muito oportuna a matéria. Na faculdade, vejo alunos e alguns professores, que mais parecem turistas indo à praia,do que acadêmicos de Direito.

Raphaella Reis de Oliveira disse:
07 de maio de 2012 às 01:39

Este é um dos artigos mais retrógrados e preconceituosos que já vi no Conjur. Sim, tem alguns pontos corretos - e óbvios, porque todo mundo sabe que "promotor amiguinho" só ajuda a outra parte por dar a suspeição de presente - mas de resto? Completamente pejorativo.
Se a questão era tratar o siso dos jovens estudantes, o autor deveria no mínimo ter um pouco mais de tato na escrita, sem inferir que salto alto, camisa pólo ou dado comportamento é restrito a determinada classe social (inferindo aí coisa ainda mais suja). É por conta de raciocínios como esse que o STF precisa dar constitucionalidade para cotas, em vez de fazer coisas mais úteis para a sociedade.
Vergonha, é o que sinto lendo um artigo desses, publicado num portal tão bom quanto o Conjur.

Henrique Camargo disse:
07 de maio de 2012 às 05:53

Matéria muito interessante e oportuna.

Leneu disse:
07 de maio de 2012 às 08:18

como apostenado creio que não está tão próximo dos jovens, pois, se estivesse mais saberia que o modo que os estudantes se trajam nada tem a ver com seu futuro profissional, e que há tantos engomadinhos aí que não prestam,
coitados dos juízes, que segundo o autor, não podem usar tênis nem fora de sua judicatura,
valei-me Deus de artigo tão retrógrado, chauvinista e de preconceitos implícitos que queremos banir do mundo jurídico.

Jaderbal disse:
07 de maio de 2012 às 10:26

É preciso distinguir as coisas: uma coisa é dizer: olha, o preconceito está arraigado nas profissões jurídicas. Por isso, jovem, cuidado com sua imagem, pois ela pode dar a alguém uma falsa impressão sobre você. Nem todos lhe darão a oportunidade de mostrar quem você realmente é. Outra coisa é dizer que haveria uma suposta relação direta entre o que a pessoa parece ser e o que ela realmente é. O artigo peca por não fazer essa distinção, por isso, reforça o preconceito. O contrário também é fácil verificar em qualquer escola ou ambiente jurídico. O profissional que se porta bem, tem postura, veste-se adequadamente, mas é uma lástima quando precisa demonstrar seu conhecimento e raciocínio jurídico. Também não entendi uma coisa: o Juiz deve ir para a academia de ginástica com que roupa? Adotar a postura profissional é recomendação de qualquer profissão. O uso da veste adequada é conselho cabível para qualquer situação. É gafe, por exemplo, trajar terno num churrasco. A pérola foi a bibliotecária de lentes grossas. Suponho que o digno autor recomendaria o uso do adereço para uma estudante de biblioteconomia, mesmo que tivesse uma visão perfeita.

Mais que coragem, é preciso humildade pra mudar de opinião. disse:
07 de maio de 2012 às 13:28

De todas as matérias do website Conjur esta foi, sem dúvidas, a mais repleta de preconceitos e de uma visão absolutamente distorcida e retrógrada da realidade. Imagino se o autor ainda está preso em algum lapso temporal ou tem capacidade de notar que a sociedade está sempre em mutação. Talvez por estar aposentado, ele esteja dentro de uma concha ou bolha e receoso em ver o que até os cegos conseguem notar. Pois bem, na minha sala, na faculdade, existem pessoas que andam com terno, e outras com saias longas, tal como ele descreveu. Todavia, não sabem fazer uma simples resenha. Eu, que assisto aulas de bermuda e camiseta, já fiz resenhas, dissertações, correções e formatação de monografias e até aconselhei meus colegas nos projetos de monografias deles. A roupa, sr. Vladimir Passos, não demonstra o caráter da pessoa. Será que a toda ou o paletó com gravata torna qualquer indivíduo em cidadão honesto? Q eu saiba, existem os "bandidos de toga", será que eu, na minha bermuda e camiseta e chinela, tenho menos dignidade? Reflita sobre seu preconceito e atualize-se, até o Código Penal será atualizado, é cediço que o senhor faça o mesmo com suas tristes inferências e fracos argumentos.

Mais que coragem, é preciso humildade pra mudar de opinião. disse:
07 de maio de 2012 às 13:38

De todas as matérias do website Conjur esta foi, sem dúvidas, a mais repleta de preconceitos e de uma visão absolutamente distorcida e retrógrada da realidade. Imagino se o autor ainda está preso em algum lapso temporal ou tem capacidade de notar que a sociedade está sempre em mutação. Talvez por estar aposentado, ele esteja dentro de uma concha ou bolha e receoso em ver o que até os cegos conseguem notar. Pois bem, na minha sala, na faculdade, existem pessoas que andam com terno, e outras com saias longas, tal como ele descreveu. Todavia, não sabem fazer uma simples resenha. Eu, que assisto aulas de bermuda e camiseta, já fiz resenhas, dissertações, correções e formatação de monografias e até aconselhei meus colegas nos projetos de monografias deles. A roupa, sr. Vladimir Passos, não demonstra o caráter da pessoa. Será que a toda ou o paletó com gravata torna qualquer indivíduo em cidadão honesto? Q eu saiba, existem os "bandidos de toga", será que eu, na minha bermuda e camiseta e chinela, tenho menos dignidade? Reflita sobre seu preconceito e atualize-se, até o Código Penal será atualizado, é cediço que o senhor faça o mesmo com suas tristes inferências e fracos argumentos.

Marcos Alves Pintar disse:
07 de maio de 2012 às 14:19

Os reclames dos comentaristas abaixo, que parecem não ser da área jurídica, são destituídos de fundamento. Odeio formalidades, mas na área jurídica isso se mostra essencial uma vez que, embora para nós operadores do direito o dia a dia possa transformar os casos em algo banal, não raro o cliente ou jurisdicionado está vendo sua vida ser decidida naquele momento. Por outro lado, como bem coloca o Articulista, misturam-se no dia a dia do universo jurídico velhos e novos, profissionais de vasta experiência com iniciantes, e não há como, sem alguma formalidade, se estabelecer alguma ordem para correto funcionamento dos trabalho.

Directus disse:
07 de maio de 2012 às 14:33

Noutro dia, lembrei, num comentário, que o discurso do "tudo ou nada" não costuma funcionar no Direito.
No tema em questão, não é diferente.
Houve exagero, sem a menor dúvida, do articulista. Um juiz não poder usar tênis fora do trabalho, por exemplo, é um absurdo. Além disso, o mérito não está na forma, mas no conteúdo. Vestir-se bem nada tem a ver com o talento jurídico.
Porém, é bom não esquecer que toda sociedade tem, no simbolismo, parte essencial de sua cultura. Toda sociedade, desde a mais primitiva à mais evoluída, estabelece "papéis" a serem exercidos por seus membros. Esses "papéis sociais" que os "atores sociais" representam são reconhecidos pela Filosofia (Nietzsche, entre outros) e nada mais são do que códigos para o estabelecimento das relações sociais. Cada "papel", portanto, possui características essenciais - incluindo as externas - que o distiguem de outros, e isso é importante como meio de organização social.
Por isso, convém não ignorar que toda profissão usa distintivos próprios, os quais, porém, só valem no respectivo exercício. Entende-se um juiz de toga na audiência, mas seria ridículo o mesmo juiz não poder calçar um tênis e vestir um moleton na academia ou no shopping.
Alunos de Direito, por sua vez, deveriam lembrar que seus futuros clientes ou jurisdicionados os procurarão por serem pessoas tidas como cultas e sérias. E a profissão começa na Faculdade. Alguém que vai de chinelo e bermuda à aula, por mais talentoso que seja, parece não entender ou respeitar a seriedade mínima exigida no meio que está frequentando. Mostra, ainda, falta de planejamento da imagem perante terceiros e passa a nítida mensagem de que algo está faltando ou não está coerente - e isso é o que menos se espera de um profissional do Direito.

Marcos Alves Pintar disse:
07 de maio de 2012 às 16:19

Tem razão em parte o magist_2008 (Juiz Estadual de 1ª. Instância). Porém, ainda na questão do tênis, devo lembrar o "frenesi" que um juiz federal daqui de São José do Rio Preto provocada quando, às 6 da tarde, já estava de tênis e sua "bike" andando pela cidade enquanto milhares de feitos aguardavam decisão. Nunca presenciei a cena, nem sei se tais fatos são verdadeiros (lembrando que o brasileiro é dado ao exagero), mas vale o registro de que em se tratando do juiz qualquer fato banal pode significar desprestígio a toda a magistratura e à Jurisdição.

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