O analfabetismo funcional e o direito: o que é um texto?

Existem pessoas que, apesar de saberem ler e escrever formalmente, não conseguem redigir um texto de forma correta nem uma pequena mensagem. E não conseguem interpretar. Talvez por isso o ChatGPT faça tanto sucesso. Ele escreve no lugar de quem não sabe redigir. Bizarro.

Spacca

Informações do Inaf (índice nacional de analfabetismo funcional) dão conta de que 38% dos universitários — sim, dos universitários brasileiros — são analfabetos funcionais. Bom, parece alto o índice. De todo modo, fosse 20% já seria demasiado.

Vejamos o tamanho do buraco. E mais: quantos analfabetos funcionais estão em cargos públicos?

Assim, em tese, um em cada três brasileiros (aproximadamente) não consegue entender o conteúdo dos textos — inclusive desta coluna. Isso explica alguns comentários. E explica o que circula nas redes sociais. Eles são muitos. Vencerão.

E muitos se tornam influencers. No Direito, coachings.

Outro dia escrevi aqui na ConJur sobre os obstáculos epistemológicos. Quanta ingenuidade de minha parte. Na verdade, deveria escrever sobre os obstáculos analbetísticos. Há uma barreira do senso comum que impede a compreensão mínima. É como se não tivesse a "barra", a metáfora entre significante e significado. Por isso o público "cola o relé".

O analfabeto funcional é um psicopata epistemológico, por assim dizer. Dá para entender por que a TV tem uma linguagem que liga diretamente a coisa à palavra, como na notícia "o trigo sobe de preço"… e o repórter está pisando… num trigal. Já escrevi muito sobre essa temática: TV e rádio em tempos néscios e Antes de Adnet, mostrei esgotamento de um "modelo".

No direito a coisa chegou com os resumos, resumos de resumos, mastigados, seja f…, simplificados e desenhados. E agora com a dita inteligência artificial vem repaginada como visual law e quejandices.

Não surpreende que, no nosso sistema de justiça, um tribunal confunda "no mesmo prazo" com "simultaneamente" (aqui).

Quem lê petições? Quem lê tanta notícia? Por que TikTtok faz tanto sucesso? Viva o império do simples. Do fácil.

As palavras estão morrendo. Em 1726 Jonathan Swift já denunciava isso, com seu sarcasmo e as vezes nem tão sutil ironia. Um cientista de Lagado descobriu que as palavras podiam ser extintas. Bastava carregar em seu lugar as coisas. Mostrar. Apontar com dedo. Não diga "balde"; apenas mostre o objeto…

Swift também foi o primeiro a denunciar os emojis. Em Viagens, outro cientista, para eliminar frases, propõe monossílabos e onomatopeias. A literatura sempre chega antes.

Com Swift (e falo apenas dele) dá aprender "direito" melhor do que nas faculdades. Com Machado também. Mas não com machado. A passagem sobre a condenação de Gulliver à pena de morte por ter salvado a rainha do incêndio é impagável… e atual! Comparece-se o Ministério Público das Viagens de Gulliver com o que se vê hoje na cotidianidade das práticas. E o que dizer da crítica filosófica aos empiristas, quando "descreve" o conteúdo dos bolsos de Gulliver? Ah, os fatos brutos…   

Bom, esforçamo-nos e parece que chegamos lá. E vamos para a terra dos Houyhnhnms. Com a certeza de que 38% dos brasileiros (universitários) — e mais um percentual dos já formados — não entenderão esta Coluna.

Lenio Luiz Streck

é jurista, professor, doutor em direito e advogado sócio fundador do Streck & Trindade Advogados Associados: www.streckadvogados.com.br

Pablo Malheiros da Cunha Frota disse:
08 de junho de 2023 às 12:35

Os mais triste do analfabetismo funcional é que muitas pessoas não enxergam quão profundo é o problema. Em grupos de redes sociais as pessoas têm dificuldade de interpretar. Imagina neste textos o Lenio ….

Fausto Sette disse:
09 de junho de 2023 às 09:10

O articulista é exímio, como sempre, em descrever um problema sem participar dele. A destruição da linguagem começa na destruição de seu valor intrínseco, algo que a filosofia relativista tanto defendida e empregada pelo Eminente Lênio é seu epitáfio. Se destruirmos a linguagem como referencia da vida comum, como é que sobreviverá o senso comum, construído por ela? Quem destrói o valor, destrói o significado; a diacrítica da liguagem exige signos absolutos, para significados compostos. Faça parte da solução, não do problema. Bjks.

Ricardo U. Dick disse:
09 de junho de 2023 às 10:50

Nenhuma surpresa sobre a estatística apresentada tampouco sobre a conclusão adotada. O fato é que não é surpresa, nem é de hoje, que a maioria esmagadora desses acadêmicos brasileiros, influenciados por educadores militantes de esquerda, e não professores profissionais, insurgem-se contra uma realidade que lhes é dita ser contrária aos seus propósitos por frustração, ou militância, por questões pessoais, desses mesmos educadores.
Assim, e não para buscarem entender a sua, e dura, realidade, consomem “informação” não dos livros que lhes fazem mais sentido, mas dos influencers do hype, ou melhor, dos “especialistas” sobre infecções epidemiológicas que nunca estudaram medicina. Criticam sobre tudo e sobre todos sem nem saber interpretar uma conclusão baseada numa premissa para exercer uma crítica baseada em alguma fonte do conhecimento. Isso porque, como dito pelo escritor, é mais fácil ver do que ler e interpretar. Tendo visto o stories do “especialista” se acham tão especialistas quanto o próprio “especialista”. E aí, para quê lhes servirá a leitura, a pesquisa, o questionamento se já sabem tudo, de tudo e de todos. Enfim, para resumir e finalizar, nenhuma surpresa o fato do analfabetismo se hoje o que importa é lacrar, e não estudar. Isso nada mais é do que o resultado gerado pelos militantes das universidades brasileiras. Enquanto essa ideologia subsistir o resultado será o mesmo, se não piorar. Loucura seria pensar diferente, afinal, o que mais importa se o “amor” venceu.

Afonso de Souza disse:
09 de junho de 2023 às 12:19

Muito bem observado.

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