Recusa do WhatsApp em cumprir decisões incomoda especialistas

Os bloqueios do aplicativo de mensagens WhatsApp no Brasil não geraram revolta apenas porque "puniram" todos os usuários por causa de processos judiciais específicos. Há também uma parcela expressiva de especialistas em Direito Digital que se diz incomodada com o Facebook e o WhatsApp, que se negam ou demoram a cumprir decisões da Justiça brasileira. Estes profissionais reuniram-se na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) nesta terça-feira (27/9) para debater a questão.

Helcio Nagamine/Fiesp

O tom de indignação contra o WhatsApp predominou a mesa de debate. Hélcio Nagamine/Fiesp

Juíza, procurador, delegados da Polícia Civil e Federal, advogada e perito criminal elevaram o tom e mostraram grande irritação com a empresa norte-americana. Muito do discurso em bloco mostrava indignação com o fato de, no momento dos bloqueios, a opinião pública ter ficado do lado da rede social e contra os juízes.

O ponto alto do painel foi o relato de uma insólita visita de membros do WhatsApp à sede do Ministério Público de São Paulo. Irônico, o procurador Paulo Marco Ferreira Lima conta que o cônsul do aplicativo (“não sei que tipo de cargo é esse”) foi ao local dizer que estava pronto para colaborar com as autoridades e explicar que a ferramenta surgiu de um ideal de 135 pessoas que buscavam desenvolver a comunicação.

“Ele disse que no caso de um terremoto no Paquistão, eles quebraram a criptografia para localizar uma criança soterrada nos escombros. Mas que essa medida é apenas para casos muito especiais, não para decisões de juizados comuns. Ou seja, ele quis dizer: ‘Não vamos fazer isso para qualquer decisãozinha de qualquer juizinho’”, contou Ferreira Lima, que também é coordenador do Núcleo de Crimes Cibernéticos do MP. 

Fora daqui
Um ponto quase unânime de extrema irritação relatado pelos debatedores é a estratégia do Facebook de dizer que não opera no Brasil (aqui seria apenas agência de publicidade), de que o Facebook Brasil não tem relação com o dos Estados Unidos e que a rede social não é proprietária do WhatsApp.

O procurador ressaltou que as empresas não tem relação, mas a imprensa mundial noticiou que o Facebook comprou o Whatsapp pela “bagatela” de US$ 22 bilhões. Relembrando sobre o primeiro caso de bloqueio, a juíza Ivana David disse que quando a Justiça bloqueou o aplicativo, “o advogado da empresa que inicialmente sequer existia no Brasil resolveu aparecer para tentar resolver a situação”.

Delegado da Polícia Federal, Carlos Eduardo Sobral disse ter um déjà-vu com a conversa. “Em 2007, durante os trabalhos da CPI da Pedofilia, o Google Brasil disse que não tinha relação com o Google Estados Unidos e que não poderia prestar as informações”, conta o presidente da Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal.

Com luva de pelica 
Para Sobral, quando o WhatsApp se recusa ou diz que não tem como fornecer informações para a Justiça, a situação configura um afastamento da possibilidade do Estado combater o crime organizado por conta de descumprimento da legislação por parte de companhias multinacionais. “A gente ainda está discutindo se empresa estrangeira deve cumprir a lei brasileira?”, questiona o delegado.

Quanto ao caso no qual uma Vara Criminal de São Bernardo (SP) determinou o bloqueio, o delegado da Polícia Civil José Mariano de Araújo Filho afirma que acompanhou de perto e que a empresa tinha as informações que a Justiça queria para conduzir as investigações. “Essa história é pura afronta à soberania nacional”, esbravejou.

A juíza Ivana pediu reflexão: “É esse tipo de serviço, que não cumpre a lei, que o Brasil irá aceitar?”. A amargura contra as empresas do Vale do Silício era tamanha que a moderadora do debate, a advogada Cristina Sleiman, não resistiu a deixar sua opinião. “O WhatsApp não está em compliance com a legislação brasileira”, disse a presidente da Comissão de Educação Digital da OAB.

O impossível é apenas muito caro
A recente mudança do WhatsApp de criptografar de forma completa as conversas foi feita por uma questão com a Justiça dos Estados Unidos. Lá, se a empresa tem esses dados, ela é obrigada a fornecer em caso de decisão judicial. Mas se é impossível tecnicamente obter, ela não tem que entregar. Então, para evitar ter que ficar atendendo decisões judiciais, a empresa implementou o novo sistema.

A história foi contada pelo perito digital Marcos Tupinambá Martin Alves Pereira, que também é professor de crimes digitais na academia da Polícia Civil. “Mas se eles quiserem criar um sistema para ter acesso às mensagens é possível. Seria complicado e caro, mas é possível”, opina. O delegado Mariano concorda e adiciona que “nenhuma criptografia é absoluta, todas podem ser quebradas”. 

Fernando Martines

é repórter da revista Consultor Jurídico.

Radgiv Consultoria Previdenciária disse:
29 de setembro de 2016 às 13:12

Oras bolas! Cabe a polícia judiciária fazer a investigação. Ultimamente, o Whatsapp virou a solução de todos os problemas da investigação. Até juiz de direito dos confins do país determina o bloqueio do aplicativo para investigar o tráfico de drogas. Onde está a Polícia? Onde está o poder de investigação do estado? Vamos trabalhar mais e deixar os aplicativos em paz, ainda mais quando se trata de aplicativo popular de uso massivo.

Nicolás Baldomá disse:
29 de setembro de 2016 às 14:28

Com todo o respeito aos especialistas, mas não me aprecem entender como funciona a criptografia ponta-a-ponta para afirmarem que o Whatsapp quebra em casos específicos.

Inclusive, sobre isto, fui procurar sobre a notícia informada de que o Whatsapp teria quebrado no caso do terremoto paquistanês e não achei uma só notícia, nem em inglês.

Eu entendo que o facebook apresente respostas e argumentos jurídicos risíveis para não efetivar decisões judiciais, contudo isto não é motivo para ignorar a forma como a tecnologia, ela mesma, se apresenta, não apenas no Whatsapp mas em tantos outros aplicatívos similares que também criptografam as mensagens e, mais ainda, as deletam automaticamente.

Mais ainda, ignorar que a tecnologia que autoriza a criptografia é legal, legítima e protege direitos constitucionais do cidadão, que parecem irrelevantes na era em que tudo e todos tem virtualmente infinitos dados sobre todos, mas que ainda são caros e devidos.

Por fim, concordo que nenhuma criptografia é absoluta e que todas podem ser quebradas, mas isto, em um processo criminal, é obrigação do Estado, não por particulares. O Estado, e apenas ele, é que pode promover a persecução penal, não podendo instituir um sistema de medo instaurado na população a fim de permitir um estado policialesco e em que todas as informações privadas podem ser fornecidas ao Estado com uma simples canetada.

Mentor disse:
29 de setembro de 2016 às 15:24

De tudo que já foi dito sobre o assunto a única certeza é que todo ilícito pode (e deve) ser realizado por WhatsApp, pois não há meios de fiscalização.
Assim se o bandido não sabia agora ele tem certeza que pode usar...

Ramiro. disse:
29 de setembro de 2016 às 16:24

Se toda criptografia fosse passível de quebra, ao menos sem estar em funcionamento um computador quântico, embora os protótipos, a NSA já teria resolvido a situação do que fazer com os grupos extremistas e o wikileaks que trafegam informações pelo TAILS.
http://www.digitaltrends.com/computing/nsa-labels-linux-tails-users-extremists/
http://www.tecmundo.com.br/seguranca/53612-tails-conheca-o-sistema-operacional-que-snowden-utiliza-para-fugir-da-nsa.htm
O que há é má criptografia, gente que pensa que entende de criptografia e não entende tanto assim, aí a casa cai.
Fosse assim as autoridades dos EUA teriam aberto arquivos de TrueCrypt de Daniel Dantas, hoje o programa é o VeraCrypt, https://veracrypt.codeplex.com/
Algoritmos como o Blowfish e Twofish, o Veracrypt combina os dois... não conheço uma nota de que conseguiram quebrar.
O que falta é no Brasil criminalizarem o TAILS...
A Apple aprendeu a lição de não brigar com hackers, e sim premiá-los.
https://www.ft.com/content/44fe40c2-5ac7-11e6-9f70-badea1b336d4

O IDEÓLOGO disse:
29 de setembro de 2016 às 22:39

O problema é o descumprimento da lei brasileira pelas empresas norte-americanas. Aliás, é fato corriqueiro que, potências empresariais desprezam a ordem jurídica nacional.

Pek Cop disse:
30 de setembro de 2016 às 07:01

Whatsapp é uma ferramenta de grande utilidade, só que não pode por em risco a ordem social e se por acima da Justiça brasileira!!!!

hammer eduardo disse:
30 de setembro de 2016 às 10:09

Curioso a maneira como a discussão é colocada pois sempre colocam o popularmente conhecido zap zap como o culpado único da incompetência e demora de nossa Justiça???? de fancaria. Acabemos com o aplicativo e viraremos uma Noruega em termos de justiça é a mensagem.,
Realmente pela sua velocidade e facilidade de uso o zap ajuda a bandidagem sem a menor sombra de duvida , apenas esquecem que ele TAMBEM ajuda a Justiça e os organismos policiais. Mais fácil seria acabarem de vez com o ESCANDALO sem NENHUM controle por todo o Pais que se constitui no uso sem NENHUM controle de celulares por parte da vagabundagem guardada atrás das merecidas grades.
Existe um medo generalizado de se tomar uma atitude definitiva com relação a isso que é algo tão gritante que agride ate a inteligência de uma criança de 3 anos. O esqueleto do sistema de celulares nas cadeias também se mostra no fato de que todo o material de comunicação é contrabandeado para dentro das cadeias através da OMISSÃO ou ação direta de quem controla aqueles estabelecimentos penais , muito simples de entender por sinal.
A coisa chega ao ponto de termos em varias cadeias tomadas elétricas que são usadas para a recarga dos aparelhos , nem no programa do Renato Aragão seria possível bolar tamanha aberração.
A consequência pratica é que a vagabundagem quando raramente colocada atrás das grades , apenas "transfere" seu escritorio para tras das grades onde alias gozam de muito mais segurança operacional se comparados com o período nas ruas. Esse é o Brasil de verdade sem as mascaras. Vamos portanto parar com essas palhaçadas pontuais de desligar tudo no Pais.

Bruno Felix disse:
30 de setembro de 2016 às 10:50

A meu ver o problema é que em muitos casos os juízes pedem dados que o whatsapp simplesmente não possui. Determinam que o whatsapp forneça dados que somente poderiam ser fornecidos pelas operadoras de telefonia (que estão doidinhas para banir o whatsapp).

Os juízes precisam entender que:

1. O Whatsapp não possui o histórico das mensagens trocadas. Admitir que o whatsapp possua esse histórico seria o mesmo que pedir aos Correios para entregarem cópia de todas cartas recebidas ou enviadas por alguém;

2. Quem é o titular de um determinado número de telefone é um dado sob responsabilidade técnica da operadora de telefonia, não do Whatsapp, o mesmo quanto ao IMEI do aparelho;

3. Geolocalização do aparelho é a operadora quem tem meios técnicos para informar, não o whatsapp.

Em suma, os juízes pedem dados que são tecnicamente impossíveis de serem informados e ficam indignados quando não são atendidos. O Judiciário precisa ser melhor assessorado em questões de informática e telecomunicações.

Ferraciolli disse:
30 de setembro de 2016 às 16:35

É possível compartilhar informações com o Facebook, mas não é possível fazê-lo com os órgãos estatais?
A criptografia é indevassável apenas quando informar não interessa?
Que lógica há nisso?

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